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No tempo da «Maria da Fonte»

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Joaquim Palminha Silva







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            Derrotada a revolta popular, após a intervenção militar estrangeira, são renovados os ingredientes dos impostos a tentarem disfarçar a dívida externa (a mesma de sempre!), tal como os excrementos dos animais “criam” moscas, os alpinistas do Poder, os espalha-brasas, os fala-barato e os prestidigitadores (quem não sabe trapaceia?) começaram a subir na vida à custa do maior número de portugueses… por atalhos aldrabados!
            Foi este tempo que inspirou a sátira de Almeida Garrett contra a nobiliarquia nova, com a composição paradigmática: «Foge, cão, / Que te fazem barão. / Mas para onde, / Se me fazem visconde?». Foi esta a época que inspirou a Camilo Castelo Branco os romances, novelas e contos sobre ricaços obtusos, que ía espalmando em páginas de caricato, de troça, ao mesmo tempo que nos revela a índole de toda esta gente: Os Mistérios de Lisboa (1854), Romance dum Homem Rico (1861), A Queda dum Anjo (1866), Memórias do Cárcere (1862), Os Brilhantes do Brasileiro (1869), Maria da Fonte (1884) …
            Foi, pois, no contexto de vitória das forças conservadoras, que o Dr. Manuel Pedro Henriques de Carvalho, ex-cirurgião da Escola Médica de Lisboa, cristão convicto, sobretudo democrata muito para além do comum, talvez pioneiro do que poderíamos chamar a utopiados Evangelhos, resolveu vir a público com um folheto para lembrar o que a muitos havia esquecido. Para lembrar pensamentos como o que segue, na ortografia de 1846, para que se possa “saborear”, de alguma forma, a surpresa que deve ter sido no seu tempo:
            «Em todas as cidades, mesmo nas villas, tem-se construído theatros, passeios públicos; mas esquecendo melhorar as fontes, os hospitais, as prisões, os asylos de caridade, e muitos outros estabelecimentos de utilidade publica. Nunca se falou tanto em ser livre, como hoje; mas em época nenhuma se pozerão em prática tantas baixezas e servilismo, a fim der se obter um emprego, uma distincção, um título.».


            O folheto do ex-cirurgião alçava-se de reprovação contra as carapuças do liberalismo (conservador), contra os agentes da “nova” agiotagem capitalista e, por tal razão, tinha por título «A EPOCA, ou A Illusão e o Engano destruídos…». Uma das suas “teimas” era a denúncia da injusta afronta feitas aos vencidos da Maria da Fonte. Entre outras conclusões, dizia o médico panfletário: «Fica pois demonstrada a existência de uma aristocracia formidável da posse da riqueza material, no materialismo dominante, ou olygarchia compacta, começando nos que tem muito, e rematando nos que possuem menos. Os que não tem riqueza ficam excluídos das garantias politicas, reduzidos á mais completa nulidade, e desprezo dos outros.».
            Súbito, num tom desassombrado, o folheto concluí: «Quando conhecerão os que dispõem da sorte da maioria dos cidadãos, que a humanidade he collectiva, que fracciona-la ou dividi-la he infringir as leis da sua fortuna, assim como as condições da boa ordem e da boa paz, da fraternidade e da concórdia?».
            O ex-cirurgião, cristão e, talvez, efectivo libertário “antes de tempo”, ao publicar este folheto (finais de 1846) num contexto de vitória do conservadorismo monárquico, pode considerar-se um personagem exemplar, na estreita galeria das figuras portuguesas de coragem cívica!
            Actual a diversos títulos, o texto do panfleto (1) só nos prova, entre outras coisas, que a História não é tem conteúdo progressivo, pois muitas vezes é repetitiva, absurda, ocasional…

(1) – Este folheto, pode ser consultado (suponho!) na Biblioteca Pública de Évora. Existe também um exemplar no Centro de Documentação da C.M.E., integrado no espólio bibliográfico que o autor destas linhas doou à própria Câmara Municipal.


Hino da Maria da Fonte
(tal qual apareceu em 1846)



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