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Fragmentos…

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Joaquim Palminha da Silva
Uma História da expansão do talento lusitano fora de Portugal (nas ciências, na tecnologia, nas artes), seria um atraente capítulo na História das perdas e danos nacionais ao longo de séculos. Esta mobilidade de emigração intelectual, nunca foi ditada pela curiosidade espiritual, mas sim por urgentes necessidades materiais… - Depois desta evidente conclusão, historiadores e sociólogos podem considerar (se fazem questão em insistir), que o português é o mais universal dos europeus! – Diz o ditado popular: «Presunção e água benta, cada um toma a que quer».
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            Os jornais, apesar dos seus excessos, têm ao menos a franqueza das suas páginas poderem ser lidas e discutidas por toda a gente… Assim, para os males culturais que causam há sempre algum remédio…
            Mas como seguir o rastro das conversas privadas sobre o estado da Nação, que saem dos lábios dos políticos, como sopros de segredos, espalhando por toda a parte a desconfiança?
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            Quando é que a retórica política deixará de ser apreciada, como fonte sem caudal? – Logo que o civismo do cidadão se torne suficientemente arguto para não dar crédito aos inventores de “paraísos” terrestres e aos profetas de “tragédias”…
            Na verdade, a opinião pública numa Democracia que se preze, não é a voz de um partido, de um grupo económico ou de um clã. O ódio dos autoritários à cultura democrática, não tolera que o cidadão se liberte das mentiras que lhe impingem, segundo o processo apregoado pelo “diabo” no Auto da Feira (Gil Vicente).
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            Ao pensamento e aos ouvidos sempre nos soa bela a palavra inteligência. Todavia, parece que não tem tido entre nós grande progresso, pois que surge distribuída com uma tal avareza que contrasta, misteriosamente, com a prodigalidade demonstrada pela imbecilidade. Mas muitas vezes, a inteligência corre o risco desconcertante de cair na megalomania… Neste caso concreto, a inteligênciacontinuará a ser, sem dúvida, uma bela mansão… mas à qual sempre falta o telhado!
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            Parece que este nosso “fim-do-mundo” está marcado para amanhã, pela madrugada… Há três ou quatro séculos que vivemos assim: - A comer antes que isto se acabe!
            E os políticos profissionais fazem parte das pessoas que mais comem nesta terra, engolem vorazmente, quase não mastigam. Comem com medo que alguém, saído do mesmo grupo, lhes tire a manjedoura. Na esfera do Poder político e poder económico nacionais, vive-se à pressa, sem tempo para adquirir maneiras.
Nesta terra tudo é efémero, as fortunas angariadas no poleiro e as fortunas herdadas de outras com roubalheiras mais antigas, todos sobem e descem, num abrir e fechar de olhos…
Os governos de acaso, improvisados, rodeiam-se de uma camarilha de cascas-grossas, de licenciados sequiosos de boa vida, ansiosos por titular-se com base no dinheiro que trazem na algibeira. Tudo é improvisado e, no exercício do mando e do Poder, não conhecem as “maneiras fidalgas” da educação e da cultura, ansiosos por mandar e comer, são sôfregos e sobranceiros: - Sabem que não tardam em aparecer outros a empurrá-los para fora do poleiro e da mesa do orçamento.
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            No «Dia de Reis» de 1966, o poeta Ruy Belo (1933-1978) escreveu estas palavras no prefácio da sua tradução do livro de Antoine de Saint-Exupéry, «Um sentido para a vida».
            «A grandeza do homem não esgota integralmente no destino da espécie. Cada indivíduo é um império e não uma formiga num formigueiro ou, o que éo mesmo, uma térmita da termiteira, símile de que voltará a deitar mão mais tarde. O homem não é o que se vê, é difícil medi-lo ou delimitá-lo. O homem são as canções nos dias de festa, a sopa quente à noitinha, as ternuras e as cóleras, são parentes, amigos. Para o homem, a verdade é aquilo que faz dele um homem. O gesto de um homem é uma fonte eterna, tem repercussão através dos tempos».

            Com Ruy Belo é grato redescobrir que existe uma vida do espírito, e que só ela nos faz permanecer dentro da Humanidade… apesar de toda a desumanidade!

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