(A propósito do prémio atribuído a Jerónimo Heitor Coelho....)
Desde que o escritor Vergílio Ferreira imortalizou Évora no romance Aparição (1959) como uma cidade fechada sobre si própria, provinciana e «empanturrada de soberba» muita coisa mudou, particularmente após a revolução democrática de 74 com o consequente desenvolvimento sociocultural, de resto vivido com particular intensidade nas décadas de oitenta e noventa do século passado. Novos hábitos culturais e de consumo, novas abordagens à criação e à fruição de eventos, novos olhares estratégicos e de planeamento e acréscimo de nova população residente acabaram por trazer alguma «escala» urbana a Évora que, bem antes dos ideais parolos e provincianos da «excelência», permitiram sonhar com uma cidade de «média dimensão» no contexto das redes territoriais europeias. Sonho efémero, todavia, que a má-sorte da crise da primeira década deste século, das más opções políticas, da má gestão financeira, do mau contributo coletivo, acabaram por condenar a cidade (irreversivelmente, digo eu) ao velho estatuto de «cidade dos pequeninos».
Noto, no entanto, que o problema do depauperamento económico e sociocultural de Évora (e do país) não é exclusivamente culpa da crise financeira pública e privada. É sobretudo culpa de uma certa «atitude cívica», ou melhor, da falta dela. Assim é porque a mesma soberba de outrora, sem nunca ter desaparecido totalmente dos alicerces sociais da cidade, parece agora recrudescer no húmus pútrido da crise. De facto, os mesmos círculos sociais fechados, mais ou menos elitistas, continuam cativos dos eternos interesses de grupo, sejam eles de natureza associativa, política, cultural, económica ou até religiosa. Por isso todos eles etiquetados em «grupinhos», todos eles desconfiados uns dos outros, todos eles senhores das suas verdades, todos eles instalados nas suas idiossincrasias. Haja um projeto público mais transversal para discutir, haja uma ideia comum para promover a cidade e logo um destes grupinhos irrompe com dificuldades, com atrapalhações, ora defendendo os seus interesses, ora manobrando a conversa para ficar na cómoda situação de observador distante. A cidade «empanturrada de soberba» que impressionou Vergílio Ferreira é hoje uma cidade que «só faz a desfazer». A custo, a muito custo, lá vai medrando algum projeto de gente resiliente e apátrida que a pobre Câmara com pobres meios acarinha. Mas se acaso um destes projetos vier a ter sucesso ou notoriedade será de esperar que os mesmos grupinhos lá arranjarão uma maneira expedita de o apoucar, de o desconsiderar, seja por ação seja por omissão. Bom, bom, para esta gente só alguma coisa que resulte do seu pensar ou do pensar íntimo do seu grupo, ou então venha «higienizada» de fora, contratada a peso de ouro: pode ser uma ideia, um artista, uma exposição, um evento... E se vier do estrangeiro (ou se for estrangeiro) tudo será então louvadíssimo, publicitadíssimo, aclamadíssimo como coisa nunca vista.
É justamente no quadro desta nossa pequenez saloia e grupal que chega a boa notícia de que Jerónimo Heitor Coelho, fotógrafo eborense premiado por essa Europa (mas profundamente desconsiderado pelos seus conterrâneos), acaba de receber mais um robusto prémio internacional com o livro «Comer em Évora» (Prix de la Littérature Gastronomique). Considerado o melhor livro de gastronomia editado no mundo pela Académie Internationale de la Gastronomie (de que fazem parte 22 países dos cinco continentes), foi um dos tais raros projetos que vingou por carolice, sem apoios institucionais para além dos que a Câmara de Évora lhe providenciou modestamente através da iniciativa «Évora, Doze Meses de Boa Mesa». Claro está que os grupinhos do costume, incluindo alguns com responsabilidade na restauração local e na promoção turística regional, bocejaram as costumadas palavras de indiferença quando confrontados com o projeto. Valeram uns quantos corajosos, honra lhes seja feita. É a esses e sobretudo ao seu autor que aqui expresso os meus sinceros votos de parabéns por este prestigiante prémio internacional com impacto na promoção da gastronomia tradicional alentejana e da própria restauração de Évora. Aliás, até julgo valer mais à promoção internacional da cidade (e do Alentejo) a edição premiada deste livro que muitos investimentos públicos na promoção turística regional em campanhas de marketing pagas generosamente a Lisboa, como o têm sido todas…
Dito isto, só espero que a comunicação social local, cumprindo o serviço público mínimo, não vir costas a mais esta boa notícia e contribua para enaltecer os bons exemplos que, ainda assim, teimam a acontecer nesta cidade dos pequeninos.